Operário
e senhor da música
Sonia
Vinas e Alexandre Zaghetto
"Adormeceu
suavemente e santamente em Deus o muito competente e honrado senhor
Johann Sebastian Bach, compositor da corte de Sua Majestade Real de
Polônia e de Sua Alteza o príncipe de Saxe, Mestre de Capela do príncipe
de Anhalt-Coethen e Chantre da Escola de São Tomás. De acordo com o
costume cristão, seu corpo foi hoje dado à terra, no cemitério de São
Tomás".
Era
sexta-feira, 31 de julho de 1750. E a voz forte do pastor da igreja de
São João de Leipzig, na Alemanha, anunciava que três dias antes a música
ficara órfã. O grande Bach havia morrido. Foi-se sem realizar alguns
sonhos, entre eles o de conhecer outro gênio da música - Georg
Friedrich Haendel - e de ver reconhecido o valor da música de boa
qualidade. Mas jamais desejou aplausos. Seu caráter disciplinado e
modesto não permitia tais pequenezas. Apenas amava a música e
desejava vê-la reverenciada da mesma forma que ele o fazia. Em certa
ocasião, executava bela peça ao órgão quando seu interlocutor
interrompeu-o, aplaudindo entusiasticamente. Muito contrariado, Bach
foi ríspido na resposta: "Não há nada que admirar! Basta ferir
a nota certa no momento preciso. O resto pertence ao órgão". Em
outro momento, aconselhou a um de seus alunos: "Se te devotares
ao trabalho como me tenho devotado, em breve poderás tocar tão bem
quanto eu".
Enquanto
o pastor luterano falava sobre a morte de Bach, uma mulher curvava a
cabeça. Pela mente de Anna Magdalena Bach - a viúva que mais tarde
escreveria uma tocante biografia do mestre de Leipizig - repassavam
cenas de uma vida dedicada à arte. Do dia em que a jovem Magdalena
ouviu Bach tocando pela primeira vez (e fugiu em disparada da igreja,
certa de que tão celestial música só poderia estar sendo tocada por
São Jorge) à morte de seus pequenos filhos, a disciplina e a bondade
do marido, seu amor a Deus e os desgostos de sua vida. Pequenos episódios
de quem se sentia eternamente agradecida por poder conviver com o
autor do sublime. "Meu marido, meu grande homem, que canta agora
diante do Senhor do Céu. Não tenho mais nenhuma razão para ficar
neste mundo: minha verdadeira existência desapareceu com Sebastian. O
tempo pesa-me longe dele", escreveria ela alguns anos depois.
Perfeccionista
e disciplinado ao exagero, Bach exigia o melhor som de cada
instrumento. E a melhor execução. Paradoxalmente, sabia penetrar as
potencialidades de cada aluno e deles somente exigia o que poderiam
oferecer, a fim de não humilhar os mais limitados. Por isso não
tinha um método fixo de ensino e adaptava suas peças a cada
estudante - o que revela sua enorme versatilidade.
Suas obras trazem as notas exatas e necessárias. Nada lhe escapava
aos olhos atentos. Detestava exageros e rebuscamentos. Ao deparar-se
com notas que sobravam, brincava antes de riscá-las da partitura:
"De onde você caiu?". O resultado desse completo domínio
das escalas musicais e do que estava escrevendo pode ser medido em
obras de gigante estatura, como o Cravo Bem Temperado (em que
escreveu um prelúdio e uma fuga para cada tonalidade), a Arte da
Fuga e a sacratíssima A Paixão Segundo São Mateus. A
respeito desta última, Anna Magdalena descreve episódio
interessante: "Lembro-me de ter entrado em seu quarto justamente
no momento em que ele se preparava para compor o solo de viola O Gólgota.
Que impressão experimentei ao ver-lhe o rosto, ordinariamente tão
calmo, da cor das cinzas, e inundado de lágrimas. Felizmente não me
viu e pude tornar a sair silenciosamnete, indo sentar-me a chorar na
escada. Ao ouvir essa música ninguém imagina o que ela custou. Tive
desejos de aproximar-me dele e passar-lhe os meus braços em torno do
pescoço, mas não o ousei; alguma coisa em seu olhar aterrorizava-me.
Sebastian jamais soube que eu lhe surpreendera nas angústias da criação
e ainda hoje me regozijo com isso, pois foi um minuto do qual somente
Deus deveria ser testemunha".
O
sublime, o grandioso, o sagrado, a mais perfeita união entre técnica
e emoção. Descrever a poderosa obra de Bach é tentar exprimir o
ideal humano de beleza. Para o pianista João Carlos Martins - um
controvertidíssimo e genial intérprete do mestre de Leipizig - o
Cravo Bem Temperado é uma "bíblia universal".
Carl
Philipp Emmanuel e Johann Friedrich Agricola escreveram no obituário
de Bach, publicado em 1754."Se alguma vez um compositor mostrou a
polifonia em sua grande força foi certamente nosso tão lamentado
Bach. Se algum músico usou os mistérios da harmonia com a maior
maestria essa pessoa foi certamente o nosso Bach. Ninguém jamais
mostrou tantas idéias engenhosas e incomuns como ele, elaborando peças,
que normalmente pareciam simples exercícios técnicos".
Mesmo
assim, 50 anos depois de sua morte, nenhum de seus trabalhos havia
sido preparado para publicação e ele passou a ser considerado fora
de moda pelas novas gerações de compositores. Mas a outros gênios
caberia a tarefa de lhe reconhecer a majestade. É célebre o episódio
em que Mozart escutou uma peça de Bach (Singet dem Herrn ein
neues Lied) e reagiu com choque: "Eis aí algo do qual se
pode aprender!". Mais tarde, foi exatamente uma execução de uma
das peças do Cravo Bem Temperado que deu a Beethoven a
reputação de virtuoso instrumentista. Os trabalhos de Bach começaram
a aparecer novamente com os esforços de um homem chamado Sebastian
Wesley, mas foi Felix Mendelsohn que teve o mérito de, em 1829,
promover sua redescoberta ao trazer novamente ao público A Paixão
Segundo São Mateus. Hoje, a paixão por Bach pode ser medida nas
páginas dedicadas a ele na Internet: mais de sete mil sites na web.
A
gigantesca obra de Bach nem de longe reflete o total de suas composições.
E a responsabilidade disso cabe ao próprio compositor. Tinha o hábito
de ficar improvisando durante horas, sem se preocupar com registros -
sua habilidade com o órgão tornou-se lendária e nenhum outro
musicista de sua época pôde se lhe comparar. Até no manejo do pedal
era suave, sem a brusquidão de outros organistas. Tal qualidade técnica
e destreza podem ser notadas, por exemplo, nas delicadezas e exigências
da Tocata e Fuga.
Por
outro lado, desprendido da própria obra, não se preocupava em
conservá-la. Por vezes, seus filhos brincavam com as partituras e
somente o zelo de Anna Magdalena as pôde salvar. "Deixe-os
brincar, depois escrevo outras", dizia.
Johann Sebastian Bach nasceu em Eisenach, na região da Turíngia (na
Alemanha), em 21 de março de 1685. Descendente de uma família de músicos.
Seu pai, Johann Ambrosius, ensinou-o a tocar violino e viola e a
escrever as notas musicais. Órfão antes de completar 10 anos, sua
formação musical ficou a cargo de seu irmão, Johann Cristoph.
Caráter
introspectivo e sério, as contantes decepções o foram afastando
gradativamente do meio externo. Cada vez mais voltou-se para a música,
Deus e a família, a quem dedica-se de maneira comovente. Nos alegres
saraus de inverno em sua casa e na inigualável ternura pelos filhos,
descobre-se um novo Bach, uma figura algo distanciada do aspecto
austero e distante que seus retratos revelam.
Para a segunda esposa escreveu o Notenbüchlein für Anna Magdalena
Bach (O Pequeno Livro de Anna Magdalena Bach). Por vezes, em casa,
tocava os concertos em ré menor e dó maior para três cravos. Os
filhos mais velhos, Friedemann e Emmanuel, eram musicistas quase tão
talentosos quanto o pai, que lhes foi o único mestre. Magdalena
descreve essas ocasiões: "A música desprendia-se com uma
estranha suavidade, uma perfeita precisão desses três pares de mãos.
Nas passagens mais belas, Emanuel olhava pra Friedemann com uma
expressão de felicidade e Friedemann sorria para Bach". Quando
os desregramentos de Friedemann chegaram ao auge e o rapaz foi
desmascarado por ter roubado uma das partituras de Bach para apresentá-la
como sua em um concurso, a dor atingiu o velho mestre duramente, mas
mesmo assim foi indulgente: "Ele possui bastante inteligência e
talento para escrever sua própria música. Não tem necessidade da
minha. Sem essa maldita bebida, nunca teria feito isso. Pobre
Friedemann!", lamentou.
Seu
amor pela esposa podem ser traduzidos por frase que ela gravou em seu
diário: "Quando envelheci e minhas faces se enrugaram e meus
cabelos se tornaram grisalhos, ele nem pareceu dar por isso. Somente
uma vez me fez esta observação: Teus cabelos que resplandeciam como
o sol têm agora a claridade da lua. É uma luz bem preferível para o
par de namorados que somos. Mas ainda que venhas a ter 20 filhos,
parecerás sempre aos meus olhos como no dia de nossas núpcias".
Tão
grande quanto o manifesto amor pela música e pela família foi a
dedicação a Deus. Nenhum outro compositor ousou tocar o sagrado como
o fez Johann Sebastian. Os mistérios da divindade parecem ter
escolhido as mãos de Bach para traduzi-los em melodia. E a fé admirável
que o movia deu-lhe palavras e atitudes quase etéreas diante dos
indizíveis sofrimentos de seus últimos dias, acentuando a nostalgia
da morte que lhe permeou a obra. Morreu aos 65 anos, cercado por seus
grandes amores: a família entoando trechos do inspirado coral Todos
os homens têm de morrer. "Tocai-me um pouco de música.
Cantai-me alguma coisa de belo sobre a morte porque minha hora
chegou", pediu momentos antes. Sua alma transpôs os portões da
Eternidade sob a proteção calorosa da música que tanto amou.
Passados
250 anos, permanece vivo o reconhecimento do mundo a Johann Sebastian
Bach. Tributo à sublimidade da arte. Compreendê-lo em sua grandeza,
quem de nós ousaria tanto? Mas amá-lo, reverenciá-lo, ser-lhe
gratos é quase dever. O pianista canadense Gleen Goud (autor da
definitiva e transgressora versão das dificílimas
Goldberg
Variations, gravada em 1955 e até hoje sem sair do catálogo)
definiu o gênio por todos nós: "O mundo inteiro da música está
em Bach. Ele é a síntese do passado, a realidade do seu tempo e a
profecia do futuro"
Link desta postagem:
http://www.artelivre.net/html/musica/al_musica_johann_sabastian_bach.htm
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